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Qualquer motivo é um bom motivo para uma Contação de Histórias: início das aulas, início das férias, dia do livro, dia do índio, dia das mães, dia dos avós, dia dos pais, dia das crianças, dia das bruxas, natal... Até mesmo as mudanças das estações do ano... Pode-se usar HISTÓRIAS para abordar assuntos importantes e complicados como a morte, bullying, desastres naturais, etc.

15/09/2008

Texto: Lúcia-Já-Vou-Indo


Lúcia-Já-Vou-Indo
(Maria Heloísa Penteado)

Lúcia Já Vou Indo não conseguia andar depressa. De maneira nenhuma. Andava devagar, falava devagar, chorava e ria devagarinho e pensava mais devagar ainda.
Muito natural, pois ela era uma lesma.

Um dia Lúcia-Já-Vou-Indo recebeu um convite para uma festa. Levou o dia inteirinho para ler o bilhete que dizia assim: “Chispa-Foguinho, a libélula, convida você para uma festa dançante, embaixo do Pé de Maracujá, às oito horas da noite do dia 30 de janeiro. Comes e bebes, muita música, muita alegria, tudo do bom, do melhor e de graça”.

Mal acabou de ler, Lúcia já se foi preparando para a festa. Queria se pôr a caminho imediatamente, embora faltasse ainda uma semana.

-Juro que vou chegar na hora!- Disse para si mesma. E começou a lembrar as muitas festas que havia perdido por chegar sempre atrasada. Ao aniversário da Maroquinha Cocinela, que era sua vizinha, chegou um dia depois da festa. Ao casamento do grilo João das Pintas com Sarapintada, chegou tão tarde que foi encontrar um casal já com um filhinho.

Nesse instante, o relógio da sala bateu três horas da tarde e Lúcia Já Vou Indo teve um sobressalto.
Pois não é que já perdera duas horas pensando naquelas coisas? E começou a se arrumar afobadamente.

Pôs na cabeça uma peruca de cachinhos com um laçarote de fita cor de laranja, e com isso perdeu um dia inteirinho.
Encheu uma cesta com brotinhos de alface para ir comendo pelo caminho, e lá se foi mais um dia. Deu corda no relógio para que não parasse na sua ausência e outro dia perdeu.

Só faltava fechar a casa e ela perdeu nesse serviço mais um dia.

Enfim, a molenga se pôs a caminho, tendo exatamente três dias para chegar ao Pé de Maracujá que não era muito longe.

Chegou o dia da festa e ela ainda estava andando. Pelo caminho encontrou muita gente que também ia pra lá. Viu dona Içá, com a cinturinha apertada num cinto de fivela de ouro, de braço dado com o marido de camisa listada e boné. Viu Lili Taturana, toda besuntada de brilhantina para que seus pelinhos não ficassem arrepiados. Viu Zé Caramujo de cachecol xadrez enrolado no pescoço. Viu as formiguinhas Quem-Quem numa longa fila, comportadas e quietinhas como meninas de orfanato a passeio num domingo. Viu abelhas, besouros, pernilongos, vespas e mil outros bichinhos. Todos passavam por ela e sumiam ao longe.

-Depressa , assim você não chega! – Diziam de passagem.

E ela dizia devagarinho mastigando um brotinho de alface:
-Já Vou Indo... Já Vou Indo... – Esse esforçava, pensando que estava andando um bocadinho mais depressa.

Que engano! Quase não saía do lugar.
Enfim, ela começou a ouvir a orquestra das cigarras. Estou pertinho, pensou, mais algumas horas e estou lá.

E o seu entusiasmo era tamanho que até conseguia de fato, andar um pouquinho mais depressa.

-Olha a pedra no caminho! – Gritou nesse instante João-Barata do Mato, que também ia indo pra festa.

Aviso inútil, porque Lúcia-Já-Vou-Indo a viu muito bem. Era a Maria Redonda, uma pedra perversa que gostava de pregar peças nos outros. Ficava sempre no meio do caminho, de propósito para que tropeçassem nela e caíssem. Então ria de se sacudir toda.

-Eu vou me desviar dela – pensou a lesminha. Mas a coitada pensava mais devagar ainda do que andava. Por isso não teve tempo de se desviar. Tropeçou e caiu. Mas não se machucou porque caiu muito devagarinho. Tão devagarinho que a pedra nem achou graça.

Lúcia levantou-se, arrumou a peruca que se havia entortado na cabeça e foi buscar a cestinha que havia rolado longe. Nisso, perdeu um dia e mais outro.

Quando chegou ao Pé de Maracujá, não havia mais nem sinal de festa, a tão esperada, comentada e suspirada festa.

Quem achou graça no caso foi o Pé de Maracujá. Começou a bater uma folha na outra e cantar assim:

“Lúcia-Já-Vou-Indo
Vinha vindo, vinha vindo,
Tropeçou numa pedrinha,
foi caindo, foi caindo”!

Mas Lúcia não achou graça nenhuma. Chorou muito, o seu chorinho vagaroso de lesma: uma lágrima por hora, um soluço a cada meia hora.

Chorou, chorou, mas seu choro manso não conseguiu acordar a libélula Chispa-Foguinho que dormia cansada da festa. Ela só escutou o chorinho da lesma no outro dia quando acordou.

- O que será isso? – a libélula disse e foi espiar. Viu a pobre Lúcia chorando, compreendeu tudo e ficou morrendo de pena.

Foi buscar uns docinhos que sobraram da festa e ofereceu-os à Lúcia. Conversou bastante com ela para ver se a consolava, e nada. Lúcia-Já-Vou-Indo continuava com o seu choro em câmara lenta e depressa a libélula se cansou. Numa última tentativa ela disse:

- Sabe Lúcia, quem vai dar uma festa agora é você. Sendo a festa na sua casa é impossível você chegar atrasada.

A lesminha ficou pensando naquilo e, como pensava muito devagar, a libélula chamou as irmãs e, ligeiras como foguetinhos, foram à casa da Lúcia, prepararam tudo e distribuíram os convites.

Credo! A família da libélula era toda elétrica. Zás-trás e tudo ficou pronto. Só faltava colocar a Lúcia dentro de casa para receber os convidados.

Enquanto isso, Lúcia-Já-Vou-Indo, que já tinha acabado de pensar e estava encantada com a idéia, vinha vindo o mais depressa que podia, talvez dentro de alguns dias - se não tropeçasse outra vez na pedra Maria Redonda- estivesse em casa.

E a libélula Chispa-Foguinho tinha agora um problema: os convidados já estavam chegando e a festa não podia começar porque a dona da casa estava fora. Como trazer Lúcia o mais depressa possível?

Cric!... A libélula deu um estalinho. Já descobrira a solução. Num abrir e fechar de olhos, explicou tudo às irmãs e foram buscar a Lúcia.
Puseram a molenga em cima de uma folha de capim e vieram voando trazendo a folha pelos ares. Danadas como elas só, em dois minutos a lesma estava em casa. Isso, apesar de ter caído da folha três vezes.

Foi assim que, oh maravilha!
Pela primeira vez na vida, Lúcia-Já-vou-Indo assistiu a uma festa inteirinha, do começo ao fim.

40 comentários:

Rodrigo Ferrarini disse...

Que lindo. Eu lia esse ivro quando criança. Foi uma emoção ler este texto mais uma vez!!

Julianna disse...

Adorei! lembrei-me do texto que costumava ler quando criança e busqui na internet. Foi ótimo rever a capa e ler o texto tão gracioso e bem bolado.

Karla Brasil disse...

Adoro esse livro li quando criança e fico muito triste por que na escola que trabalho não tem :(

Mariana Armentano disse...

Adorei!!! Li esse livrinho umas 500 vezes, quando era pequenininha. Era a minha estorinha favorita!! Eu tinha uma peninha da lesminha...
Com certeza, vou ler para os meue filhinhos!!

ana cleia disse...

Li este livro na minha infância, agora estou presenteando minha filha do meio com essa magnífica leitura, que retrata um pouquinho do jeitinho dela, pois ela faz tudo muito devagarzinho igualzinho a Lúcia já vou indo.

fabag2008 disse...

adorei ler ete livro mais uma vez,que maravilha voltei a infacia. obrigado!.

GABRIELLE disse...

adorei o livro é muitoo fofo...

ALINE disse...

Nossaaaaa!!!
este texto Lúcia-Já-Vou-indo fez parte da minha infância fui alfabetizada um pouco tarde e passava horas e horas lendo e relendo!!! Me emocionei vendo a ilustração...

Marcela disse...

Li essa estoria qdo era criança e nunca mais esqueci.
Tenho o habito de chamar as pessoas vagarosas de "Lucia já-vou-indo". Um dia chamei meu namorado de Lucio....
ele interessou pela estoria e peguei na biblioteca da escola onde trabalhava e li para ele.
A Lúcia é mto linda.
Nunca, nunca esquecerei.
Obrigada.

Nice disse...

Que lindo!
Tenho mania de chamar tudo que é lento de "Lucia já vou indo", minha filha cresceu ouvindo eu dizer isso(hj c/11 anos). E hoje ela me pergunta: Mamãe o que é Lucia ja vou indo? No momento eu estava no transito e referia ao motorista da frente. Então comentei com ela sobre o Livro que li qdo criança. Procurei na internet a história e li para ela, fiz questão de ler! Ela adorou a história. Isso da uma saudade!

Lidia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lidia disse...

Que emoção!Eu lia este livro quando era criança.
E ele até hoje não saiu da minha memória, me lembro da minha professora Ligia que nos passou este livro, e o busquei na internet.
E eu estou o relendo com a minha sobrinha,que gostou muito.
Obrigada a autora por essa maravilha.

Sidvan Cavallari disse...

Gostei da história.

Sidvan Cavallari disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pires.leila disse...

Adoro esse livro, lia para meu filho que hoje tem 13 anos, ele ficava torcendo para Lucia chegar em tempo à festa e vibrava no final. Era uma das histórias favoritas dele, junto com "O jogo do contrário","A Chapeuzinho Amarelo", "Flictz" e outros do Ziraldo. Saudade daquele tempo. Para quem tem filhos pequenos, leiam e contem muitas histórias....depois serão lindas lembranças para todos.

luiza disse...

OIIIIIIIIIIII adorei tenho 08 anos e li uma metade para minha mãe e ela leu metade pra mim foi super legal acho que isso é muito importante pois ensentiva seus filhos a lerem . a lucia é muito devagar coitada , agora as suas amigas foguetinhas deviam ajudar ela em todas as festas dos anos de vida de lucia rsrsrsrsrs

simone boz disse...

Adorei poder ler novamente esta história,pois quando eu era pequena li várias vezes este mesmo livro.Obrigado!

Elbio Gazozo disse...

Puxa, depois do Rodrigo eu sou o segundo homem a comentar este livro. E eu que li este livro quando pequeno também, atribuia o texto a Cecilia Meirelles. Foi emocionante rever a estória e descobrir o verdadeiro nome da autora.

dahoraatemorrer disse...

Esse livro é simplesmente maravilhoso!!!!
Li na biblioteca da escola há uns 25 anos atrás e continua lindo e encantador.E agora tive a oportunidade de contar para minha filha.Obrigada pela oportunidade!!

Claudia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Claudia disse...

Oi Eliana
Acabei de conhecer seu blog e adorei!
Fiquei emocionada tbe, pq li esta estoria ha tantos anos que nao me lembrava mais...
Que legal poder ler para os meus anjos agora!
Vou te seguir tbe!
Bjks e uma otima semana

http://blogdaclauo.blogspot.com/

Mônica Suñer disse...

Adorei encontrar essa história aqui. Mencionei-a em meu blog e ia procurar uma capa, qdo achei você. Vou colocar um link para cá, para que outras pessoas tenham a oportunidade de conhecer a você e ao livro. Muito obrigada!! Bjs

Renata disse...

Não conhecia o texto.Adorei ! Meu filho de 7 anos trouxe do colégio e trabalhamos juntos nele. Achei muito interessante !

sarahrafaela disse...

Que coisa fantástica, estava comentando há pouco com meus filhos a respeito do livro mais lindo que ja li em minha vida e isso já faz muito tempo mesmo.Procurei na internet e te achei, parabéns e muito obrigada por marcar minha infância. Bons tempos em que os livros despertavam os mais nobres sentimentos de uma criança. Gostaria muito de ter o livro em minha casa, mas ainda não consegui, se puder me ajudar, me falando onde comprar, ficarei muito grata.
Rafaela, Sorocaba SP.

Borboletinha* disse...

Que legal! Ameiiiiiiiiii... Eu lia esta historinha num livro de Português da 1 série! Procurei na net e achei o blog! Adorei mesmo!

Rapunza disse...

Parabéns pela postagem. Lia esse livro quando tinha 5 anos.

Iceman disse...

Obrigado pelo excelente texto. Impossível não lembrar da minha infância.

Pamela Fernandes disse...

Adoreeiii o texto , leembro o quanto gostava dessa história quando era pequinininhaa , foi mt bom ver e relembrar um pouquinho , obg

sibele disse...

Que lindo!! Eu adorava pegar esse livro para ler, na biblioteca do meu bairro. Acho que eu li ele umas 20 vezes ou mais. Isso a mais de 20 anos!

cintia soares disse...

Adoro essa histórinha! Quando pequena minha profe fazia a contação da história eu e meus colegas adoravamos, pena que na escola em que trabalho não tem, já procurei mas não a encontrei, resolvi de contar aos meus alunos o que eu mesma havia entendido da história e eles adoraram, me alegro muito, pois foi uma história infantil que marcou minha infancia quando criança!

glauceforte disse...

Que emoção em reler esta estória. Minha vida inteira foi lembrando de Lúcia já vou indo. O desenho da capa é lindo, e em cada folha tinha outros desenhos, me lembro de cada um...isso ha mais de 30 anos!!!
Obrigada por me fazer relembrar!!!

Danizinha disse...

Amei, li essa história quando criança e foi muito bom recordar

Prof Rose disse...

Amei a histórinha... fiquei tão encantada q até participei do blog e já estou curiosa para ler as outras!!!

Prof Rose disse...

Adorei tanto a história que me associei no blog e estou curiosa para ler as outras!!!!

Torres e Torres disse...

Lia essa historinha para minha filha quando ela era ainda muito pequena, hoje ela já estar com vinte anos e de vez em quando me diz: _ Mãe, você se lembra da Lúcia- Já- Vou-Indo? Eu adorava aquela historinha.
Hoje não tenho mais criança em casa, mas sempre que posso conto essa história para outras crianças e como é lindo ver o brilho nos olhos delas.

daluz vieira disse...

minha mãe lia quando crianças e diz que era sua historia preferida na infância e contava para mim quando eu tinha 6 anos hoje tenho 13 e ela conta para meu irmãozinho

Keila Santos disse...

Nossa senti uma forte emoção ao ler essa historia novamente, foi o primeiro livro que li na vida eu tinha exatamente 6 anos de idade.

Roberto Dos Santos disse...

muito interessante para trabalhar com as crianças.

Susana disse...

Obrigada por disponibilizar esta historia que tanto amei quando criança. Muito fofa! Muito inteligente. Li há 30 anos, quando eu estava no pré-escolar. Continua atual e maravilhosa! Beijos e parabéns pelo blog!

Bharbara Oliveira disse...

Este foi um dos primeiros livros que li quando criança, amo esta historia!