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31 de jul. de 2009

PAI


Ahhh! Como dói a saudade. Aperta, esmaga o coração...
Saudade. Lembrança... De alguém que eu julgava além de imortal... "IMORRÍVEL"
Imortal porque não morrerá jamais.
Estará vivo nas minhas lembranças e nas lembranças de tantos mais...
"IMORRÍVEL"
A SAUDADE me deixa com vontade de fazer nada. De pensar nada.
De não levantar... Não falar nem ouvir... Nem sentir.
Não quero sentir SAUDADE! Antes, sentir LEMBRANÇA...
Sentir PRESENÇA... Ou não sentir nada.

Meu DEUS! Não era eu! Era o SENHOR alí ouvindo as últimas recomendações e perguntando o que não foi falado...
- É "fia". Dessa vez o PAI não volta. A gente vai se ver no dia do juízo final. Tenha paciência com o ALAN, tenha paciência... A casa... (fez recomendações para com o meu filho ALAN e, acerca da casa em que moro)
- Eu quero um caixão bem bonito! (e levanta o dedo indicador com autoridade)
- Tá bom PAI. Se não tiver um caixão bem bonito lá, eu mando fazer... O senhor merece.
- Quero o terno que o Isaac me deu, camisa branca, meia e sapato! (novamente levanta o dedo indicador...)
- Tá bom PAI, o senhor "vai" bem bonito!
- Avise a "todo mundo". ...O pessoal do Paraná, de Lençóis Paulista, os vizinhos...
- PAI, eu me sinto muito honrada por ter nascido tua filha. Eu fiquei muito feliz por DEUS ter me dado a oportunidade de conhecer o senhor... Por fazer parte dessa família.
- Amém "fia". Amém. Glória a DEUS.
- PAI, vem me visitar nos meus sonhos... Eu vou sentir muita saudade do senhor.
- Imagina "fia" que eu vou fazer uma coisa dessa!!!
- Vem sim PAI. Eu sempre sonho com a LOIDE... (minha irmã falecida há 7 anos)
- Ah bom, mais isso num é comigo. Isso é com DEUS. Eu num vou prometer nada.
- Ah PAI!!! Como que eu vou viver sem o senhor?
- A vida é assim "fia".
- PAI, o que o senhor quer que escreva na "plaquinha"? (lápide)
- "Combati o bom combate, terminei minha carreira e guardei a fé". (II Timóteo 4:7)
- Que bonito! ...Tá bom PAI. Amanhã a ANDRESSA e a NEME veem ver o senhor...
- Amanhã não adianta. Amanhã eu não vou estar mais aqui.
- Eu não quero parar de beijar o senhor! ...Ai meu DEUS.
- Vai "fia". Vai... Tenha paciência.
- Bênção PAI, "vai" com DEUS.
- Deus abençõe "fia". Até o dia do juízo final.
...

Minha mãe, continua arrumando o lugarzinho na cama.

E eu... Sabem aquele texto "As cinco linguagens do amor"? Pois é. A melhor linguagem do amor para o meu PAI é "pequenos gestos, gentilezas" Eu tenho saudades de preparar o leite com soja pela manhã, levar um cafézinho fresquinho na cama, trazer morangos para uma vitamina à tarde... um pedaço de bolo de puba (desses que tem nas Casas do Norte), trazer na compra o shampoo, condicionador, óleo para o corpo (com a idade a pele vai ficando seca...), aparar as sobrancelhas... os cabelinhos do nariz e aqueles de dentro da orelha.

Tempos que não volta mais. Mais que foi muito bem aproveitado.

15 de jul. de 2009

Dia dos AVÓS

Bahhh! A GIULI me enviou um link http://www.cservice.com.br/base3/livrariasaraiva/F8505.htm da página onde fou postado o convite para a Contação de História do DIA DOS AVÓS. É claro que "eu fiquei toda missi" (mI sIntindo) rsrs.


Após a contação de história com o tema: DIA DOS AVÓS Confeccionamos cartões para presentear os nossos avós...


Usamos:
*IMAGINAÇÃO;
*papel cartão;
*sulfite colorida;
*flores artificiais;
*fita durex colorida;
*cola branca
Aqui, a oportunidade de conferir algumas obras...

Esta é a AMANDA

Esta é a obra de arte da EDUARDA.
Afamília dela estava ao lado apressando-a mas...
Ela nem ligava, rsrs.

Rsrs, as mamães ficam aflitíssimas opinando na "execução" das obras.Nestas ocasiões, ofereço à elas material para que confeccionem a "sua própria obra" ... Elas "fingem" que ficam envergonhadas mas, eu sei que A-DO-RAM!!!


Esta é a GIULIA. Uma grande artista de apenas 4 anos.





26 de julho Dia dos AVÓS


13 de jul. de 2009

Livro: VÓ NANA


***Vó Nana***

Vo Nana e Neta moravam juntas há muito, muito tempo.
Elas compartilhavam tudo, inclusive as tarefas.
Todos os dias Neta cortava a lenha enquanto Vó Nana limpava as cinzas do fogão.
Neta varria e Vó Naná espanava.
Vó Nana arrumava as camas enquanto neta estendia a roupa.
Neta fazia o mingau, o chá e as torradas para o café da manhã.
Vó Nana picava as cenouras e nabos para o almoço.
E juntas, Vó Nana e Neta preparavam seu jantar de milho e aveia.
Neta sempre dizia o quanto detestava milho e aveia mas, Vó Nana dizia que, enquanto ela fosse viva Neta haveria de comer milho e aveia tos os dias pois era muito bom pra saúde.
Por isso, Neta parou de reclamar. Ela comeria milho e aveia no café, almoço e jantar se com isso, Vó Nana fosse viver para sempre.
Um dia, Vó Nana não se levantou como de costume para tomar o café da manhã.
- Estou me sentindo cansada – ela disse – Acho que vou tomar o café na cama hoje.
- Mas você nunca come na cama! – exclamou Neta – Você não gosta de migalhas de pão nos seus lençóis.
- Estou cansada. – Vó Nana repetiu.
E quando Neta trouxe a bandeja com o mingau, a torrada e o chá, Vó Nana estava dormindo e continuou assim durante o almoço e o jantar também.
Enquanto Vó Naná dormia, Neta cortou lenha, limpou as cinzas do fogão, varreu, espanou, estendeu a roupa e arrumou sua cama. Ela tentou assobiar enquanto trabalhava, mas tudo o que conseguiu fazer foi soltar um fraco “óinc”.
Na manhã seguinte, Vó Nana ainda estava cansada, mas, com muito esforço se levantou. Comeu uma colher de mingau, um pedaço de torrada e tomou um gole de chá.
- Isso não é suficiente nem para alimentar uma andorinha. Quanto mais uma porca adulta como você – ralhou Neta fazendo uma cara de zangada.
Mas Vó Nana só fechou os olhos por um instante, depois levantou-se pegou o chapéu e a bolsa.
- Tenho muito oque fazer hoje – ela disse – Tenho de estar preparada.
- Preparada para quê? – perguntou Neta.
Vó Nana não respondeu, nem precisava. Neta já sabia a resposta e isso fez com que ela sentisse uma enorme vontade de chorar.
Vó Nana devolveu os livros à biblioteca e não pegou mais nenhum emprestado. Ela foi ao banco, retirou todo o seu dinheiro e fechou sua conta.
Depois foi ao armazém e pagou o que devia. Pagou também as contas da luz, do
Verdureiro e da lenha.
Quando chegou em casa enfiou o resto do dinheiro na bolsa de Neta.
- Guarde-o bem e gaste com cuidado.
- Sim Vó. – falou Neta tentando sorrir mas, com os lábios tremendo.
- Pronto, pronto. Nada de lágrimas. – disse Vó Nana abraçando-a.
- Eu prometo. – disse Neta mas, era a promessa mais difícil que ela já fizera na vida.
- Agora, - falou Vó Nana – quero me fartar.
- Seu apetite voltou? – perguntou Neta toda esperançosa.
- Não sinto fome de comida. Quero passear lentamente pela cidade e me fartar de olhar as árvores, as flores, o céu, tudo!
E assim, Vó Nana e Neta saíram passeando tranquilamente pela cidade.
De vez em quando, Vó Nana tinha de parar para descansar. Mas não parava de olhar. Apreciar, escutar, cheirar e saborear.
- Veja! Olhe como a luz brilha sobre as folhas!
- Veja! Olhe como as nuvens lá no céu parecem se juntar para fofocar!
- Olhe! Está vendo como o jardim se reflete na lagoa?
- Está ouvindo os periquitos discutindo?
- Está sentindo o perfume da terra molhada?
- Vamos experimentar a chuva?
Já era tarde quando Vó Nana e Neta voltaram pra casa.
Vó Nana estava tão cansada que Neta levou-a direto pra cama.
Neta preparou um pote de milho e aveia e comeu tudinho. Depois lavou e guardou a louça.
Então ela entrou no quarto de Vó Nana que ainda não estava dormindo.
Neta sentou-se ao seu lado na cama e perguntou: - Você se lembra quando eu era pequena e tinha um pesadelo e você deitava na minha cama e me abraçava bem forte?
- Lembro. – respondeu Vó Nana.
- Pois hoje eu gostaria de deitar na sua cama e abraça-la bem forte. Posso?
- Claro que pode. – respondeu Vó Nana.
Então Neta apagou as luzes e abriu a janela para que entrasse o ar fresco e abriu as cortinas para que entrasse o luar.
Depois, deitou-se na cama de Vó Nana, apertou-a em seus braços e, pela última vez, Vó Nana e Neta ficaram bem abraçadinhas até o dia clarear.




Livro: VÓ NANA



***Vó Nana***

Vo Nana e Neta moravam juntas há muito, muito tempo.
Elas compartilhavam tudo, inclusive as tarefas.
Todos os dias Neta cortava a lenha enquanto Vó Nana limpava as cinzas do fogão.
Neta varria e Vó Naná espanava.
Vó Nana arrumava as camas enquanto neta estendia a roupa.
Neta fazia o mingau, o chá e as torradas para o café da manhã.
Vó Nana picava as cenouras e nabos para o almoço.
E juntas, Vó Nana e Neta preparavam seu jantar de milho e aveia.
Neta sempre dizia o quanto detestava milho e aveia mas, Vó Nana dizia que, enquanto ela fosse viva Neta haveria de comer milho e aveia tos os dias pois era muito bom pra saúde.
Por isso, Neta parou de reclamar. Ela comeria milho e aveia no café, almoço e jantar se com isso, Vó Nana fosse viver para sempre.
Um dia, Vó Nana não se levantou como de costume para tomar o café da manhã.
- Estou me sentindo cansada – ela disse – Acho que vou tomar o café na cama hoje.
- Mas você nunca come na cama! – exclamou Neta – Você não gosta de migalhas de pão nos seus lençóis.
- Estou cansada. – Vó Nana repetiu.
E quando Neta trouxe a bandeja com o mingau, a torrada e o chá, Vó Nana estava dormindo e continuou assim durante o almoço e o jantar também.
Enquanto Vó Naná dormia, Neta cortou lenha, limpou as cinzas do fogão, varreu, espanou, estendeu a roupa e arrumou sua cama. Ela tentou assobiar enquanto trabalhava, mas tudo o que conseguiu fazer foi soltar um fraco “óinc”.
Na manhã seguinte, Vó Nana ainda estava cansada, mas, com muito esforço se levantou. Comeu uma colher de mingau, um pedaço de torrada e tomou um gole de chá.
- Isso não é suficiente nem para alimentar uma andorinha. Quanto mais uma porca adulta como você – ralhou Neta fazendo uma cara de zangada.
Mas Vó Nana só fechou os olhos por um instante, depois levantou-se pegou o chapéu e a bolsa.
- Tenho muito oque fazer hoje – ela disse – Tenho de estar preparada.
- Preparada para quê? – perguntou Neta.
Vó Nana não respondeu, nem precisava. Neta já sabia a resposta e isso fez com que ela sentisse uma enorme vontade de chorar.
Vó Nana devolveu os livros à biblioteca e não pegou mais nenhum emprestado. Ela foi ao banco, retirou todo o seu dinheiro e fechou sua conta.
Depois foi ao armazém e pagou o que devia. Pagou também as contas da luz, do
Verdureiro e da lenha.
Quando chegou em casa enfiou o resto do dinheiro na bolsa de Neta.
- Guarde-o bem e gaste com cuidado.
- Sim Vó. – falou Neta tentando sorrir mas, com os lábios tremendo.
- Pronto, pronto. Nada de lágrimas. – disse Vó Nana abraçando-a.
- Eu prometo. – disse Neta mas, era a promessa mais difícil que ela já fizera na vida.
- Agora, - falou Vó Nana – quero me fartar.
- Seu apetite voltou? – perguntou Neta toda esperançosa.
- Não sinto fome de comida. Quero passear lentamente pela cidade e me fartar de olhar as árvores, as flores, o céu, tudo!
E assim, Vó Nana e Neta saíram passeando tranquilamente pela cidade.
De vez em quando, Vó Nana tinha de parar para descansar. Mas não parava de olhar. Apreciar, escutar, cheirar e saborear.
- Veja! Olhe como a luz brilha sobre as folhas!
- Veja! Olhe como as nuvens lá no céu parecem se juntar para fofocar!
- Olhe! Está vendo como o jardim se reflete na lagoa?
- Está ouvindo os periquitos discutindo?
- Está sentindo o perfume da terra molhada?
- Vamos experimentar a chuva?
Já era tarde quando Vó Nana e Neta voltaram pra casa.
Vó Nana estava tão cansada que Neta levou-a direto pra cama.
Neta preparou um pote de milho e aveia e comeu tudinho. Depois lavou e guardou a louça.
Então ela entrou no quarto de Vó Nana que ainda não estava dormindo.
Neta sentou-se ao seu lado na cama e perguntou: - Você se lembra quando eu era pequena e tinha um pesadelo e você deitava na minha cama e me abraçava bem forte?
- Lembro. – respondeu Vó Nana.
- Pois hoje eu gostaria de deitar na sua cama e abraça-la bem forte. Posso?
- Claro que pode. – respondeu Vó Nana.
Então Neta apagou as luzes e abriu a janela para que entrasse o ar fresco e abriu as cortinas para que entrasse o luar.
Depois, deitou-se na cama de Vó Nana, apertou-a em seus braços e, pela última vez, Vó Nana e Neta ficaram bem abraçadinhas até o dia clarear.




29 de jun. de 2009

Os sete corvos

Os Sete Corvos
Conto de autoria dos irmãos Grimm, traduzido do original por
Ruth Salles e Renate Kaufmann.

Era uma vez um homem que tinha sete filhos, mas por mais que o desejasse, nem uma só filha. Afinal, de novo sua mulher lhe comunicou a próxima vinda de uma criança; e, quando esta veio ao mundo, era realmente uma menina.
Foi grande a alegria, mas a criança era pequena e franzina e, devido sua fraqueza, precisou ser batizada às pressas. O pai mandou, com urgência, um dos meninos fonte buscar água para o batismo, e os outros seis foram junto. Como cada um quisesse ser o primeiro a tirar água, o jarro lhes caiu dentro do poço, e lá ficaram eles sem saber o que fazer, e nenhum se atrevia a ir para casa. Como nunca mais voltassem, o pai impaciente sentou-se e disse:
- Certamente, por causa de alguma brincadeira, esses meninos desalmados se esqueceram da tarefa. E, temeroso de que a menina morresse sem ser batizada, exclamou mui o zangado:
- Quisera que todos eles se transformassem em corvos.
Mal pronunciara essas palavras, ouviu sobre a cabeça um ruflar de asas, olhou para o alto e viu sete corvos pretos como carvão que alçaram vôo e partiram. Os pais não puderam tirar a maldição, mas, embora desolados com a perda dos sete filhos, encontraram algum consolo na querida filhinha, a qual logo adquiriu forças e, dia após dia, foi ficando mais bonita.
Durante muito tempo, ela nunca soube que tivera irmãos, pois os pais tinham o cuidado de não lhe falar no assunto; até que um dia, por acaso, ouviu algumas pessoas dizerem que ela era uma menina muito bonita, mas, praticamente, a culpada da desgraça de seus sete irmãos.
Ela então, consternada, foi perguntar ao pai e mãe se tivera irmãos e o que fora feito deles.
Os pais não puderam manter o segredo por mais tempo, mas lhe disseram que aquilo fora um decreto do céu, e seu nascimento apenas o motivo inocente. Porém a menina todos os dias sentia escrúpulos de ter sido a causa da desgraça de seus irmãos e achou que precisava salvá-los.
E não teve mais sossego, até que um dia partiu secretamente e saiu pelo mundo afora, a fim de encontrá-los, onde quer que estivessem, e libertá-los.
Não levou nada consigo, a não ser um anelzinho de seus pais como lembrança, um pão para matar a fome, um jarrinho com água para saciar a sede e um banquinho para descansar. E foi andando, para longe, para longe, até o fim do mundo.
Chegou onde estava o sol, mas este era quente demais, assustador, e comia criancinhas. Fugiu então apressadamente e correu até a lua, mas esta era fria demais e também horrível e má.
Ao notar a criança disse:- Sinto cheiro, sinto cheiro de carne humana.
A menina foi-se embora depressa e chegou até as estrelas, que foram boas e gentis com ela.
Cada uma estava sentada em sua cadeirinha; e a estrela d’alva, dando um ossinho de galinha, disse: - Sem este ossinho não poderás destrancar a porta da montanha de vidro, onde se encontram seus irmãos.
A menina pegou o ossinho, embrulhou-o muito bem num lenço, e partiu novamente, caminhando por muito tempo, até chegar à montanha de vidro.
O portão estava trancado, e ela quis tirar o ossinho do lenço, mas quando o abriu estava vazio: ela perdera o presente das bondosas estrelas. Que fazer agora? Queria salvar os irmãos e não tinha a chave para abrir a montanha de vidro.
A boa irmãzinha apanhou uma faca, cortou o dedo mindinho, introduziu-o na fechadura e, por felicidade, o portão se abriu. Assim que ela entrou, um anãozinho veio ao seu encontro e disse:
- Que procuras, minha filha?
- Procuro meus irmãos, os sete corvos – respondeu ela.
Disse o anão:
- Os senhores corvos não estão em casa, mas se quiseres esperar até que voltem, então entra. Em seguida, o anãozinho trouxe a refeição dos sete corvos em sete pratinhos e em sete copinhos, e de cada pratinho a irmãzinha comeu um bocadinho, e de cada copinho bebeu um golinho; mas no último copinho deixou cair o anelzinho que trouxera consigo. De repente, ela ouviu no ar o ruflar de asas e o crocitar. O anãozinho então disse:
- Aí vêm chegando os senhores corvos.Eles chegaram, quiseram comer e beber e procuraram por seus pratinhos e copinhos. E, então, um após outro perguntou:
- Quem comeu no meu pratinho? Quem bebeu no meu copinho? Foi a boca de um ser humano.E, quando o sétimo chegou ao fundo do copo, o anelzinho rolou ao seu encontro. Ele então o viu, reconheceu-o como o anel de seu pai e de sua mãe e disse:
- Deus queira que nossa irmãzinha esteja aqui, pois assim estaremos salvos.
Quando a menina, que os espreitava atrás da porta, ouviu este desejo, adiantou-se, e todos os corvos recobraram a forma humana.
E, abraçaram-se e beijaram-se uns aos outros, e voltaram contentes para casa.

FIM

18 de jun. de 2009


Gonçalves Dias
I-Juca Pirama


No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos - cobertos de flores,

Alteiam-se os tetos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,

Temíveis na guerra, que em densas coortes

Assombram das matas a imensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de glória,

Já prélios incitam, já cantam vitória,

Já meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes!

Seu nome lá voa na boca das gentes,

Condão de prodígios, de glória e terror!
As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspiraram dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes acendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sujeitos na paz.
No centro da taba se estende um terreiro,

Onde ora se aduna o concílio guerreiro

Da tribo senhora, das tribos servis:

Os velhos sentados praticam d’outrora,

E os moços inquietos, que a festa enamora,

Derramam-se em torno dum índio infeliz.
Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,

Sua tribo não diz: - de um povo remoto

Descende por certo - dum povo gentil;

Assim lá na Grécia ao escravo insulano

Tornavam distinto do vil muçulmano

As linhas corretas do nobre perfil.
Por casos de guerra caiu prisioneiro

Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro

Assola-se o teto, que o teve em prisão;

Convidam-se as tribos dos seus arredores,

Cuidosos se incubem do vaso das cores,

Dos vários aprestos da honrosa função.
Acerva-se a lenha da vasta fogueira

Entesa-se a corda da embira ligeira,

Adorna-se a maça com penas gentis:

A custo, entre as vagas do povo da aldeia

Caminha o Timbira, que a turba rodeia,

Garboso nas plumas de vário matiz.
Em tanto as mulheres com leda trigança,

Afeitas ao rito da bárbara usança, índio já querem cativo acabar:

A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,

Brilhante enduape no corpo lhe cingem,

Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,
II
Em fundos vasos d’alvacenta argila

Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa,

Reina o festim.
O prisioneiro, cuja morte anseiam,

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no ocaso

Jamais verá!
A dura corda, que lhe enlaça o colo,

Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve

Do que o festim!
Contudo os olhos d’ignóbil pranto

Secos estão;

Mudos os lábios não descerram queixas

Do coração.
Mas um martírio , que encobrir não pode,

Em rugas faz A mentirosa placidez do rosto

Na fronte audaz!
Que tens, guerreiro?

Que temor te assalta No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te viram,

Folga morrendo.
Folga morrendo;

porque além dos Andes Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.
Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,

Lá murcha e pende:

Somente ao tronco, que devassa os ares,

O raio ofende!
Que foi? Tupã mandou que ele caísse,

Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado

Esmoreceu!
Que temes, ó guerreiro?

Além dos Andes Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.
III
Em larga roda de novéis guerreiros

Ledo caminha o festival Timbira,

A quem do sacrifício cabe as honras,

Na fronte o canitar sacode em ondas,

O enduape na cinta se embalança,

Na destra mão sopesa a iverapeme,

Orgulhoso e pujante.

- Ao menor passo Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra,

Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,

Como que por feitiço não sabido

Encantadas ali as almas grandes

Dos vencidos Tapuias, inda chorem

Serem glória e brasão d’imigos feros.
"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro;

"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,

"As nossas matas devassaste ousado,

"Morrerás morte vil da mão de um forte."
Vem a terreiro o mísero contrário;

Do colo à cinta a muçurana desce:

"Dize-nos quem és, teus feitos canta,

"Ou se mais te apraz, defende-te.

"Começa O índio, que ao redor derrama os olhos,

Com triste voz que os ânimos comove.
IV
Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi.
Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci;

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.
Já vi cruas brigas,

De tribos imigas, E as duras fadigas Da guerra provei; Nas ondas mendaces Senti pelas faces Os silvos fugaces Dos ventos que amei.
Andei longes terras Lidei cruas guerras, Vaguei pelas serras Dos vis Aimoréis; Vi lutas de bravos, Vi fortes - escravos! De estranhos ignavos Calcados aos pés.
E os campos talados, E os arcos quebrados, E os piagas coitados Já sem maracás; E os meigos cantores, Servindo a senhores, Que vinham traidores, Com mostras de paz.
Aos golpes do imigo, Meu último amigo, Sem lar, sem abrigo Caiu junto a mi! Com plácido rosto, Sereno e composto, O acerbo desgosto Comigo sofri.
Meu pai a meu lado Já cego e quebrado, De penas ralado, Firmava-se em mi: Nós ambos, mesquinhos, Por ínvios caminhos, Cobertos d’espinhos Chegamos aqui!
O velho no entanto Sofrendo já tanto De fome e quebranto, Só qu’ria morrer! Não mais me contenho, Nas matas me embrenho, Das frechas que tenho Me quero valer.
Então, forasteiro, Caí prisioneiro De um troço guerreiro Com que me encontrei: O cru dessossêgo Do pai fraco e cego, Enquanto não chego Qual seja, - dizei!
Eu era o seu guia Na noite sombria, A só alegria Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava, Em mim descansava, Que filho lhe sou.
Ao velho coitado De penas ralado, Já cego e quebrado, Que resta? - Morrer. Enquanto descreve O giro tão breve Da vida que teve, Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo, Mas forte, mas bravo, Serei vosso escravo: Aqui virei ter. Guerreiros, não coro Do pranto que choro: Se a vida deploro, Também sei morrer.
V
Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba; Os guerreiros murmuram: mal ouviram, Nem pode nunca um chefe dar tal ordem! Brada segunda vez com voz mais alta, Afrouxam-se as prisões, a embira cede, A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
Timbira, diz o índio enternecido, Solto apenas dos nós que o seguravam: És um guerreiro ilustre, um grande chefe, Tu que assim do meu mal te comoveste, Nem sofres que, transposta a natureza, Com olhos onde a luz já não cintila, Chore a morte do filho o pai cansado, Que somente por seu na voz conhece. - És livre; parte. - E voltarei. - Debalde. - Sim, voltarei, morto meu pai. - Não voltes! É bem feliz, se existe, em que não veja, Que filho tem, qual chora: és livre; parte! - Acaso tu supões que me acobardo, Que receio morrer! - És livre; parte! - Ora não partirei; quero provar-te Que um filho dos Tupis vive com honra, E com honra maior, se acaso o vencem, Da morte o passo glorioso afronta.
- Mentiste, que um Tupi não chora nunca, E tu choraste!... parte; não queremos Com carne vil enfraquecer os fortes.
Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas O rebater do coração se ouvia Precípite. - Do rosto afogueado Gélidas bagas de suor corriam: Talvez que o assaltava um pensamento... Já não... que na enlutada fantasia, Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, Do velho pai a moribunda imagem Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato! Curvado o colo, taciturno e frio. Espectro d’homem, penetrou no bosque!
VI
- Filho meu, onde estás? - Ao vosso lado; Aqui vos trago provisões; tomai-as, As vossas forças restaurai perdidas, E a caminho, e já! - Tardaste muito! Não era nado o sol, quando partiste, E frouxo o seu calor já sinto agora! - Sim demorei-me a divagar sem rumo, Perdi-me nestas matas intrincadas, Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo; Convém partir, e já! - Que novos males Nos resta de sofrer? - que novas dores, Que outro fado pior Tupã nos guarda? - As setas da aflição já se esgotaram, Nem para novo golpe espaço intacto Em nossos corpos resta. - Mas tu tremes! - Talvez do afã da caça.... - Oh filho caro! Um quê misterioso aqui me fala, Aqui no coração; piedosa fraude Será por certo, que não mentes nunca! Não conheces temor, e agora temes? Vejo e sei: é Tupã que nos aflige, E contra o seu querer não valem brios. Partamos!... - E com mão trêmula, incerta Procura o filho, tacteando as trevas Da sua noite lúgubre e medonha. Sentindo o acre odor das frescas tintas, Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente... Do filho os membros gélidos apalpa, E a dolorosa maciez das plumas Conhece estremecendo: - foge, volta, Encontra sob as mãos o duro crânio, Despido então do natural ornato!... Recua aflito e pávido, cobrindo Às mãos ambas os olhos fulminados, Como que teme ainda o triste velho De ver, não mais cruel, porém mais clara, Daquele exício grande a imagem viva Ante os olhos do corpo afigurada. Não era que a verdade conhecesse Inteira e tão cruel qual tinha sido; Mas que funesto azar correra o filho, Ele o via; ele o tinha ali presente; E era de repetir-se a cada instante. A dor passada, a previsão futura E o presente tão negro, ali os tinha; Ali no coração se concentrava, Era num ponto só, mas era a morte!
- Tu prisioneiro, tu? - Vós o dissestes. - Dos índios? - Sim. - De que nação? - Timbiras. - E a muçurana funeral rompeste, Dos falsos manitôs quebrastes maça... - Nada fiz... aqui estou. - Nada! - Emudecem; Curto instante depois prossegue o velho: - Tu és valente, bem o sei; confessa, Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo! - Nada fiz; mas souberam da existência De um pobre velho, que em mim só vivia.... - E depois?... - Eis-me aqui. - Fica essa taba?
- Na direção do sol, quando transmonta. - Longe? - Não muito. - Tens razão: partamos. - E quereis ir?... - Na direção do acaso.
VII
"Por amor de um triste velho, Que ao termo fatal já chega, Vós, guerreiros, concedestes A vida a um prisioneiro. Ação tão nobre vos honra, Nem tão alta cortesia Vi eu jamais praticada Entre os Tupis, - e mas foram Senhores em gentileza.
"Eu porém nunca vencido, Nem nos combates por armas, Nem por nobreza nos atos; Aqui venho, e o filho trago. Vós o dizeis prisioneiro, Seja assim como dizeis; Mandai vir a lenha, o fogo, A maça do sacrifício E a muçurana ligeira: Em tudo o rito se cumpra! E quando eu for só na terra, Certo acharei entre os vossos, Que tão gentis se revelam, Alguém que meus passos guie; Alguém, que vendo o meu peito Coberto de cicatrizes, Tomando a vez de meu filho, De haver-me por se ufane!" Mas o chefe dos Timbiras, Os sobrolhos encrespando, Ao velho Tupi guerreiro Responde com tôrvo acento:
- Nada farei do que dizes: É teu filho imbele e fraco! Aviltaria o triunfo Da mais guerreira das tribos Derramar seu ignóbil sangue: Ele chorou de cobarde; Nós outros, fortes Timbiras, Só de heróis fazemos pasto. -
Do velho Tupi guerreiro A surda voz na garganta Faz ouvir uns sons confusos, Como os rugidos de um tigre, Que pouco a pouco se assanha!
VIII
"Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és! Possas tu, descendente maldito De uma tribo de nobres guerreiros, Implorando cruéis forasteiros, Seres presa de via Aimorés.
"Possas tu, isolado na terra, Sem arrimo e sem pátria vagando, Rejeitado da morte na guerra, Rejeitado dos homens na paz, Ser das gentes o espectro execrado; Não encontres amor nas mulheres, Teus amigos, se amigos tiveres, Tenham alma inconstante e falaz!
"Não encontres doçura no dia, Nem as cores da aurora te ameiguem, E entre as larvas da noite sombria Nunca possas descanso gozar: Não encontres um tronco, uma pedra, Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos, Padecendo os maiores tormentos, Onde possas a fronte pousar.
"Que a teus passos a relva se torre; Murchem prados, a flor desfaleça, E o regato que límpido corre, Mais te acenda o vesano furor; Suas águas depressa se tornem, Ao contacto dos lábios sedentos, Lago impuro de vermes nojentos, Donde fujas com asco e terror!
"Sempre o céu, como um teto incendido, Creste e punja teus membros malditos E oceano de pó denegrido Seja a terra ao ignavo tupi! Miserável, faminto, sedento, Manitôs lhe não falem nos sonhos, E do horror os espectros medonhos Traga sempre o cobarde após si.
"Um amigo não tenhas piedoso Que o teu corpo na terra embalsame, Pondo em vaso d’argila cuidoso Arco e frecha e tacape a teus pés! Sê maldito, e sozinho na terra; Pois que a tanta vileza chegaste, Que em presença da morte choraste, Tu, cobarde, meu filho não és."
IX
Isto dizendo, o miserando velho A quem Tupã tamanha dor, tal fado Já nos confins da vida reservada, Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias Da sua noite escura as densas trevas Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára! O grito que escutou é voz do filho, Voz de guerra que ouviu já tantas vezes Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma! - Esse momento só vale a pagar-lhe Os tão compridos trances, as angústias, Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra. Ele que em tanta dor se contivera, Tomado pelo súbito contraste, Desfaz-se agora em pranto copioso, Que o exaurido coração remoça.
A taba se alborota, os golpes descem, Gritos, imprecações profundas soam, Emaranhada a multidão braveja, Revolve-se, enovela-se confusa, E mais revolta em mor furor se acende. E os sons dos golpes que incessantes fervem, Vozes, gemidos, estertor de morte Vão longe pelas ermas serranias Da humana tempestade propagando Quantas vagas de povo enfurecido Contra um rochedo vivo se quebravam.
Era ele, o Tupi; nem fora justo Que a fama dos Tupis - o nome, a glória, Aturado labor de tantos anos, Derradeiro brasão da raça extinta, De um jacto e por um só se aniquilasse.
- Basta! Clama o chefe dos Timbiras, - Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, E para o sacrifício é mister forças. -
O guerreiro parou, caiu nos braços Do velho pai, que o cinge contra o peito, Com lágrimas de júbilo bradando: "Este, sim, que é meu filho muito amado!
"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, "Corram livres as lágrimas que choro, "Estas lágrimas, sim, que não desonram."
X
Um velho Timbira, coberto de glória, Guardou a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi! E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava, Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!
"Eu vi o brioso no largo terreiro Cantar prisioneiro Seu canto de morte, que nunca esqueci: Valente, como era, chorou sem ter pejo; Parece que o vejo, Que o tenho nest’hora diante de mi.
"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo! Pois não, era um bravo; Valente e brioso, como ele, não vi! E à fé que vos digo: parece-me encanto Que quem chorou tanto, Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"
Assim o Timbira, coberto de glória, Guardava a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi. E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava, Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".
FIM