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29 de nov. de 2018

Zé Malandro era boa pessoa, mas malandro que nem ele só. Em vez de trabalhar como todo mundo, preferia passar a vida zanzando e jogando baralho. Ou então ficava deitado na rede, folgado, tocando viola de papo para o ar. Por causa disso era pobre, pobre, pobre. 
Certo dia, estava em casa preparando o jantar, um pouquinho de feijão e um pedaço de pão seco, quando bateram na porta. Era um viajante. O homem, muito velho, pedia um pouco de comida. 
— Entre aí — disse Zé Malandro. — Onde um quase não come, dois quase não vão comer também. 
Os dois riram. 
Após o jantar, o viajante agradeceu muito e contou que tinha poderes mágicos. 
— Você foi muito generoso repartindo a comida comigo 
— disse o velho viajante. — Em retribuição pode me fazer quatro pedidos. Por exemplo — sugeriu ele —, se quiser, 
pode pedir para ser protegido pelo resto da vida. 

— Concedido — disse o velho. — Por exemplo, se quiser, pode pedir perdão para todos os seus pecados. 
Zé Malandro pensou e disse: 
— Prefiro ter uma figueira que quem subir nela só desce com minha ordem. 
— Concedido — disse o velho. — Por exemplo, se quiser, pode pedir sua salvação. 
Zé Malandro pensou e disse: 
— Prefiro ter um banco que quem sentar nele só sai com minha ordem. 
— Concedido — disse o velho. — Por exemplo, se quiser, pode pedir, quando morrer, para ir para o céu. 
Zé Malandro pensou e disse: 
— Prefiro ter um saco de pano que quem entrar dentro só sai se eu mandar. 
O velho coçou a cabeça, concedeu, despediu-se e seguiu viagem. 
A partir daquele dia, Zé Malandro plantou um pé de figo ao lado de sua casa e nunca mais se preocupou com nada 
vezes nada. Passava o dia inteiro ou deitado na rede de papo para o ar ou jogando baralho. Como ganhava todas, 
sempre tinha dinheiro para comprar comida, roupa e as coisas de casa. Era tudo de que o Zé precisava. Mas o tempo é invisível. Passa dia e noite e ninguém vê.  A figueira virou uma árvore frondosa e Zé Malandro 
acabou ficando velho. Muito velho.
Certa noite, bateram na porta de sua casa. Era a Morte vestida com uma capa preta. 
— Zé, pode se preparar. Sua hora chegou — disse ela segurando uma foice.


— Mas como! — exclamou ele espantado. — Já? Deve haver algum engano! Ainda me sinto tão bem! 
A Morte não era de muita conversa. 
— Se está pronto, vamos. 
Zé Malandro baixou a cabeça. 
— Posso fazer um último pedido? — perguntou ele com lágrimas nos olhos. — Quero comer um figo antes de morrer. 
— Pode ser — disse a Morte. — Mas ande logo com isso. 
— O problema — explicou Zé Malandro retorcendo o corpo de lado — é que estou meio velho e já não consigo trepar na árvore para pegar uma fruta. 
E implorou: 
— Por favor, dona Morte, faça isso por mim! É o último desejo de um pobre velho miserável raquítico esclerosado caindo aos pedaços! 
A Morte resmungou mas aceitou. Subiu na árvore, arrancou um figo e lá ficou. Não conseguiu mais descer de jeito nenhum. 
Zé Malandro deu risada, despediu-se e foi jogar baralho. 
Deixou a Morte presa lá em cima, furiosa. 
Com a Morte aprisionada no alto da figueira, a confusão na cidade onde Zé Malandro vivia foi geral. Como ninguém mais morria, os coveiros e fabricantes de caixões ficaram sem trabalho. Os médicos e hospitais perderam a clientela. 
E, além disso, houve desemprego, pois as pessoas não se aposentavam mais nem cediam lugar para as outras mais 
jovens. E o pior: a população começou a aumentar muito. 
— Isso é contra a natureza! — gritava a Morte revoltada, agarrada nos galhos da figueira. — Você tem que me deixar 
sair daqui! 
E a Morte insistiu tanto, explicou tanto, argumentou tanto que Zé Malandro acabou cedendo. 
— Mas só deixo você descer se me der mais sete anos de vida — disse ele. 
A Morte não tinha outro jeito. Acabou concordando. 
E assim, Zé Malandro continuou sua vidinha folgada de sempre, feliz da vida, jogando baralho, cada vez mais velho, 
cada vez mais invencível. 
Sete anos passam depressa. 
Certa noite, bateram na sua porta. Era um homem estranho, de cara feia, chapéu e paletó escuro. 
— Zé, se prepare — disse o homem. — Sua hora chegou. 
— Quem é você? — quis saber Zé Malandro. 
— Sou o Diabo — respondeu o outro, tirando o chapéu e mostrando dois tristes chifres. — A Morte não quis vir de jeito 
nenhum, mas me mandou no lugar dela para buscar você. 
— Mas como! — disse o Zé espantado. — Já? Deve haver algum engano! 
O Diabo caiu na gargalhada. 
— Não venha com essa conversa mole. Já estou avisado sobre você. Vamos embora agorinha mesmo. Ou vai me pedir pra subir na figueira? Nessa eu não caio! 
Zé Malandro baixou a cabeça. 

— Posso fazer um último pedido? — perguntou ele com lágrimas nos olhos. — É muito importante. É o último desejo de um pobre velho miserável raquítico esclerosado 
caindo aos pedaços. Queria tomar um traguinho de cachaça antes de abotoar o paletó. Você me acompanha? 
O Diabo lambeu os beiços. 
— Até que não é má ideia! 
— Sente-se aí enquanto eu pego os copos e a pinga — disse Zé Malandro, puxando o banquinho. 
Dito e feito. O Diabo sentou e de lá não saiu mais. 
— Me tira daqui! — gritou ele, assustado. 
Zé Malandro deu risada, despediu-se e foi jogar baralho. 
Com o Diabo preso no banquinho, acabaram-se os crimes na cidade. As cadeias ficaram vazias e os guardas, delegados, advogados e juízes preocupados em perder seus 
empregos. Além disso, como as pessoas agora só falavam a verdade, começou a haver muita confusão porque as verdades são muitas. Mas o pior não foi isso. Acontece que o Diabo passava o dia inteiro sentado no banquinho gritando, guinchando e falando os piores palavrões. 
— Cala a boca! — dizia Zé Malandro. 
— Minha mulher me mata! — berrava o Diabo furioso. 
— Saí para buscar você já faz mais de um ano e ainda não voltei pra casa! Quando eu voltar ela me arrebenta! 
— Diga a ela que você ficou preso num banquinho! 
— Ela não vai acreditar! Me solta, Zé Malandro, por favor, que a Diaba me quebra a cara! 

Cansado daquela figura resmungando dia e noite dentro de casa, Zé Malandro acabou cedendo. 
— Mas só deixo você sair se me der mais sete anos de vida — disse ele. 
O Diabo não tinha outro jeito. Acabou concordando. 
E assim, Zé Malandro continuou sua vidinha folgada de sempre, feliz da vida, jogando baralho, cada vez mais velho, cada vez mais invencível. 
O tempo passou. No dia em que se completaram sete anos, Zé Malandro fechou a casa inteira bem fechada só deixando uma janelinha destrancada. No quarto, debaixo da janela, colocou seu saco de pano bem aberto. 
Naquela mesma noite, o Diabo apareceu, ele e sua mulher. 
A Diaba não tinha acreditado nem um pouco na história do banco e dessa vez quis vir junto com o marido. 
O Diabo bateu na porta. Nada. Bateu de novo. Nada. 
Acabou descobrindo a janelinha aberta e entrou com a mulher por ela. 
Os dois foram parar dentro do saco de pano e lá ficaram. 
Zé Malandro apareceu com um pedaço de pau na mão e começou a bater no saco. 
— Socorro! — berrava o Diabo. 
— Me acuda! — berrava a Diaba. 
O casal dos infernos passou o ano inteirinho dentro do 
saco tomando pancada todo santo dia. No fim, Zé Malandro cansou. Estava velho demais e até um pouco gagá. Soltou o casal de diabos que fugiu mancando apavorado. Dias depois, o Zé fechou os olhos e entregou a rapadura. 
Foi direto para as profundezas do inferno. 
Ao chegar lá bateu na porta. Apareceu o Diabo que, ao vê-lo, recuou assustado e começou a gritar: 
— Vai embora! Aqui você não entra! Cai fora, Zé Malandro! No inferno você não fica! 
Sem saber direito o que fazer, Zé Malandro foi até o céu e bateu na porta. Apareceu São Pedro. O santo fez cara feia. 
— Você não quis ser protegido, não quis perdão para seus pecados, não quis a salvação nem vir para o céu. 
Agora, não tem jeito. Vai embora! No céu você não fica. 
E assim, sem ter para onde ir, Zé Malandro achou melhor voltar para a Terra. Dizem que até hoje anda por aí, invencível, jogando seu baralhinho. 







(Ricardo Azevedo)




Um jovem viajante andava pelas estradas do mundo.
Certa tarde, arranjou um lugar debaixo de uma árvore e sentou-se para descansar.
 Um vulto apareceu, só Deus sabe de onde. O moço puxou assunto com o recém-chegado. Conversa vai, conversa vem, descobriu que aquele vulto era a Morte. Em pé, com um pedaço de pau na mão, o rapaz gritou:
 — Se veio pra me levar vai ter que ser na marra. Não pretendo morrer de jeito nenhum. Tenho uma vida inteira pela frente!
A Morte caiu na risada:
— Calma, amigo. Não tenha medo. Só estou aqui de passagem. Você é muito jovem. Sua hora ainda está longe de chegar. Um dia eu pego você, mas não vai ser já! Disse isso e desapareceu numa espécie de poeira escura e acinzentada. O jovem ficou pensando. Não queria morrer nem quando ficasse velho. Achava errado morrer. Para ele, a morte era uma injustiça. Lembrou-se de sua conversa com o vulto misterioso e sorriu:
— Acho até que a Morte sentiu um pouco de medo de mim! Daquele dia em diante, uma ideia cresceu fixa na cabeça do moço. Ia passar o resto da vida procurando um lugar onde a morte não existisse.
— Deve haver um lugar assim — disse ele para si mesmo.
 — É simplesmente uma questão de lutar para encontrar. E lá se foi o jovem viajante pelo mundo afora em busca do lugar onde ninguém morria. Andou, andou, andou. Andava e perguntava para todos que encontrava. Ninguém nunca tinha ouvido falar no tal lugar. Alguns até davam risada. Outros balançavam a cabeça sem querer acreditar. O jovem, teimoso, foi em frente. Um dia, encontrou um homem velho conduzindo uma carroça velha puxada por um burro velho. A carroça estava cheia de pedras.
 — O senhor sabe onde fica o lugar onde ninguém morre?
— Se não quer morrer — respondeu o homem velho —, fique perto de mim. E apontou o dedo para longe. — Está vendo aquela montanha? Se ficar comigo, enquanto eu não transportar toda ela com minha carroça, pedra por pedra, pedaço de terra por pedaço de terra, você vai viver.
 — Mas por quanto tempo? — Com certeza, mais do que cem anos — respondeu o homem velho.
— É pouco — disse o moço. — Quero viver bem mais que isso. Despediu-se e foi embora. Andou, andou, andou. Mais adiante, encontrou um homem muito velho com um machado muito velho na mão.
— O senhor sabe onde fica o lugar onde ninguém morre?
— Se não quer morrer — respondeu o homem muito velho —, fique perto de mim. E apontou o dedo para uma floresta escura que cobria uma planície imensa. — Está vendo aquela mata? Se ficar comigo, enquanto eu não cortar todas as suas árvores, tronco por tronco, galho por galho, você vai viver.
— Mas por quanto tempo? — Com certeza, cerca de duzentos anos — respondeu o homem muito velho.
— É pouco — disse o moço. — Quero viver bem mais que isso. Despediu-se e foi embora. Andou, andou, andou. Mais adiante, encontrou um homem muito, muito velho, carregando um balde muito, muito velho, cheio de água.
— O senhor sabe onde fica o lugar onde ninguém morre? — Se não quer morrer — respondeu o homem muito, muito velho —, fique perto de mim. E com o dedo mostrou um oceano que cobria a linha do horizonte de ponta a ponta.
— Está vendo aquele mar? Se ficar comigo, enquanto eu não tirar toda sua água com meu balde, litro por litro, gota por gota, você vai viver.
— Mas por quanto tempo? — Com certeza, cerca de trezentos anos — respondeu o homem muito, muito velho.
 — É pouco — disse o moço. — Quero viver bem mais que isso. Despediu-se e foi embora. Andou, andou, andou. Em seguida, andou, andou, andou. E depois, andou, andou e andou mais ainda.
 Certa noite, enxergou um castelo dourado no alto de um despenhadeiro. O castelo brilhava no meio da escuridão. O moço subiu pelas pedras do penhasco. Chegou no castelo pouco depois do amanhecer. Bateu na porta. Silêncio. Bateu de novo. O lugar parecia desabitado. Sem saber o que fazer, resolveu ficar por ali passeando. Perto de uma fonte, encontrou uma moça que o chamou pelo nome. A jovem era a coisa mais linda que o moço já tinha visto na vida.
 — Por favor — disse ele aproximando-se, encantado.
 — Por acaso, sabe onde fica o lugar onde ninguém morre? A moça sorriu e seu sorriso era simplesmente luminoso.
— Este é o lugar aonde a Morte não vem — respondeu a moça.
— Fique para sempre comigo — pediu ela. E disse mais: — Enquanto estiver aqui, tenha certeza disso, você vai viver.
— Mas por quanto tempo? — O tempo que você desejar! Era tudo o que o jovem viajante queria ouvir. A partir daquela manhã, passou a morar com a moça bonita do castelo dourado que ficava no alto do despenhadeiro. Por sorte, a vida no lugar onde ninguém morre era muito boa. Todos os dias, na hora das refeições, a mesa aparecia posta cheia de comidas e bebidas deliciosas. À noite, o jovem dormia com a bela moça numa cama macia forrada de veludo vermelho. De vez em quando o rapaz pensava na Morte.
— Enganei a bandida! — dizia ele orgulhoso e cheio de felicidade. Mas o tempo é um vento que leva tudo. Acontece que o jovem viajante deu para sentir falta da família, dos amigos e da cidade onde tinha nascido. Conversou com a moça bonita:
— Gostaria de visitar meus pais e meus irmãos.
 — Para quê? — perguntou ela. — Somos tão felizes!
— Sinto saudade — explicou o rapaz. A moça bem que tentou dissuadir o moço, mas não teve jeito. Ao perceber que o rapaz estava mesmo decidido a visitar a família, a jovem achou que já estava na hora de falar a verdade.
 — Preciso contar uma coisa — começou ela.
 — É algo que você ainda não sabe. — A moça falava com jeito.
 — Você já está morando aqui comigo há mais de quinhentos anos.
 O jovem viajante arregalou os olhos. — Como assim? No começo, o rapaz não quis acreditar nas palavras da moça, mas ela tanto falou, tanto explicou, tanto argumentou que ele acabou convencido.
 — Não faz mal — disse confuso. — Mesmo assim, quero voltar para pelo menos rever minha casa e o lugar onde nasci. A moça bonita não quis insistir mais. Apenas disse:
 — Está bem. Vá, se quiser! E explicou o que o jovem devia fazer. Pediu a ele que viajasse no cavalo branco que vivia preso na estrebaria.
 — Ele é mágico — contou ela.
— É capaz de galopar mais rápido do que a ventania. A jovem continuou. Seus olhos ficaram cheios de água:
— Por favor, preste muita atenção — pediu ela.
— Nunca desça do cavalo e, principalmente, nunca, de jeito nenhum, coma qualquer coisa enquanto estiver fora do castelo dourado. O jovem viajante concordou, pegou o cavalo branco, despediu-se e partiu.
Foi viajando e quanto mais viajava mais espantado ficava. É que o mundo estava completamente diferente! Onde antes existia uma imensa montanha agora havia uma cidade. Onde antes havia uma floresta escura agora existia uma imensa planície. Onde antes existia um oceano, o chão agora estava rachado de tão seco. O jovem cavaleiro andava, olhava e não conseguia reconhecer quase nada.
 Chegando à pequena vila onde tinha nascido, encontrou uma cidade grande e muito movimentada.
 Falou seu nome. Ninguém conhecia.
Perguntou sobre sua família. Ninguém mais lembrava.
Procurou sua antiga casa. Não existia mais.
Desconsolado, o rapaz achou melhor voltar para a moça bonita do castelo dourado que ficava no alto do despenhadeiro na terra onde ninguém morre.
Foi andando e quanto mais andava mais sentia o corpo fraco. Era uma mistura de cansaço, espanto, saudade e fome. A tarde caía fria anunciando a noite. No caminho, encontrou um homem levando uma carroça cheia de maçãs.
 A fome apertou na barriga do jovem viajante. "Uma ou duas maçãs não vão me fazer mal", pensou ele e gritou: — Dá pra me vender umas maçãs? — Quantas? — quis saber o sujeito, parando a carroça.
— Uma ou duas.
— Só isso? — exclamou o homem com voz desanimada.
— Pode pegar. Não vai custar nada. É por conta da casa. O jovem saltou do cavalo, escolheu uma maçã e mordeu. Foi quando uma mão fria e forte agarrou sua nuca.
 — Agora você não me escapa! O homem da carroça cheia de maçãs era ela, a Morte, o último suspiro, a treva sem fim, a vigília que nunca acaba, o derradeiro alento, o sono da noite sem horas.

 Conformado, o jovem viajante amoleceu o corpo e deixou que a escuridão tomasse conta de tudo.


O homem que enxergava a morte

Ricardo Azevedo  


Era um homem pobre. Morava num casebre com a mulher e seis filhos pequenos. 
O homem vivia triste e inconformado por ser tão miserável e não conseguir melhorar de vida.
Um dia, sua esposa sentiu um inchaço na barriga e descobriu que estava grávida de novo. 
Assim que o sétimo filho nasceu, o homem disse à mulher:
– Vou ver se acho alguém que queira ser padrinho de nosso filho.
Vestiu o casaco e saiu de casa com ar preocupado. Temia que ninguém quisesse ser padrinho 
da criança recém-nascida. Arranjar padrinho para o sexto filho já tinha sido difícil. 
Quem ia querer ser compadre de um pé-rapado como ele?
E lá se foi o homem andando e pensando e quanto mais pensava mais andava inconformado 
e triste.
 Mas ninguém consegue colocar rédeas no tempo.
O dia passou, o sol caiu na boca da noite e o homem ainda não tinha encontrado ninguém 
que aceitasse ser padrinho de seu filho. Desanimado, voltava para casa, quando 
deu com uma figura curva, vestindo uma capa escura, apoiada numa bengala. A bengala 
era de osso.
– Se quiser, posso ser madrinha de seu filho – ofereceu-se a figura, com voz baixa.
– Quem é você? – perguntou o homem.
– Sou a Morte.
O homem não pensou duas vezes:
– Aceito. Você sempre foi justa e honesta, pois leva para o cemitério todas as pessoas, 
sejam elas ricas ou pobres. Sim – continuou ele com voz firme –, quero que seja minha 
comadre, 
madrinha de meu sétimo filho!
E assim foi. No dia combinado, a Morte apareceu com sua capa escura e sua bengala
de osso. O batismo foi realizado. Após a cerimônia, a Morte chamou o homem de lado.
– Fiquei muito feliz com seu convite – disse ela. – Já estou acostumada a ser maltratada. 
Em todos os lugares por onde ando as pessoas fogem de mim, falam mal de mim, me 
xingam e amaldiçoam. Essa gente não entende que não faço mais do que cumprir minha 
obrigação. Já imaginou se ninguém mais morresse no mundo? Não ia sobrar lugar para 
as crianças que iam nascer! 
Na verdade – confessou a Morte –, você é a primeira pessoa que me trata com gentileza 
e compreensão.
E disse mais:
– Quero retribuir tanta consideração. Pretendo ser uma ótima madrinha para seu filho.
A Morte declarou que para isso transformaria o pobre homem numa pessoa rica, famosa 
e poderosa.
– Só assim – completou ela –, você poderá criar, proteger e cuidar de meu afilhado.
O vulto explicou então que, a partir daquele dia, o homem seria um médico.
– Médico? Eu? – perguntou o sujeito, espantado. Mas eu de Medicina não entendo nada!
– Preste atenção – disse ela.
Mandou o homem voltar para casa e colocar uma placa dizendo-se médico. Daquele 
dia em diante, caso fosse chamado para examinar algum doente, se visse a figura dela, 
a figura da Morte, 
na cabeceira da cama, isso seria sinal de que a pessoa ia ficar boa.
– Em compensação – rosnou a Morte –, se me enxergar no pé da cama, pode ir
chamando o coveiro, 
porque o doente logo, logo vai esticar as canelas.
A Morte esclareceu ainda que seria invisível para as outras pessoas.
– Daqui pra frente – concluiu a famigerada –, você vai ter o dom de conseguir enxergar 
a Morte cumprindo sua missão.Dito e feito.
O homem colocou uma placa na frente de sua casa e logo apareceram as primeiras pessoas 
adoentadas. O tempo passava correndo feito um rio que ninguém vê.
Enquanto isso, sua fama de médico começou a crescer.
É que aquele médico não errava uma.
O doente podia estar muito mal e já desenganado. Se ele dizia que ia viver, dali a 
pouco o doente estava curado.
Em outros casos, às vezes a pessoa nem parecia muito enferma. O médico chegava, 
olhava, examinava, coçava o queixo e decretava:
– Não tem jeito!
E não tinha mesmo. Não demorava muito, a pessoa sentia-se mal, ficava pálida e 
batia as botas. A fama do homem pobre que virou médico correu mundo. E com a 
fama veio a fortuna. Como muitas pessoas curadas costumavam pagar bem, o sujeito 
acabou ficando rico.
Mas o tempo é um trem que não sabe parar na estação.
O sétimo filho do homem, o afilhado da Morte, cresceu e tornou-se adulto.
Certa noite, bateram na porta da casa do médico. Dessa vez não era nenhum doente 
pedindo ajuda. Era uma figura curva, vestindo uma capa escura, apoiada numa 
bengala feita de osso. A figura falou em voz baixa:
– Caro compadre, tenho uma notícia triste: sua hora chegou. Seu filho já é homem feito. 
Estou aqui para levar você.
O médico deu um pulo da cadeira.
– Mas como! – gritou. – Fui pobre e sofri muito. Agora que tenho uma profissão, ajudo 
tantas pessoas,tenho riqueza e fartura, você aparece pra me levar! Isso não é justo!
A Morte sorriu.
– Vá até o espelho e olhe para si mesmo – sugeriu. – Está velho. Seu tempo já passou.
Mas o médico não se conformava. E argumentou, e pediu, e suplicou tanto que a Morte 
resolveu conceder mais um pouquinho de tempo.
– Só porque somos compadres, só por ser madrinha de seu filho, vou lhe dar mais um 
ano de vida – disse ela antes de sumir na imensidão.
O velho médico continuou a atender gente doente pelo mundo afora.
Um dia, recebeu um chamado. Era urgente. Uma moça estava gravemente enferma. 
Disseram que seu estado era desesperador. O homem pegou a maleta e saiu correndo. 
Assim que entrou no quarto da menina enxergou, parada ao pé da cama, a figura sombria e 
invisível da Morte, pronta para dar o bote.
O médico sentou-se na beira da cama e examinou a moça. Era muito bonita e delicada. 
O homem sentiu pena. Uma pessoa tão jovem, com uma vida inteira pela frente, não podia 
morrer assim sem mais nem menos. "Isso está muito errado", pensou o médico, e tomou 
uma decisão. 
"Já estou velho, não tenho nada a perder. Pela primeira vez na vida vou ter que desafiar 
minha comadre.
" E rápido, de surpresa, antes que a Morte pudesse fazer qualquer coisa, deu um jeito 
de virar o corpo da menina na cama, de modo que a cabeça ficou no lugar dos pés e os 
pés foram parar do lado da cabeceira. Fez isso e berrou:
– Tenho certeza! Ela vai viver! E não deu outra. Dali a pouco, a linda menina abriu 
os olhos e sorriu como se tivesse acordado de um sonho ruim.
A família da moça agradeceu e festejou. A Morte foi embora contrariada, e no dia seguinte 
apareceu na casa do médico.
– Que história é essa? Ontem você me enganou!
– Mas ela ainda era uma criança!
– E daí? Aquela moça estava marcada para morrer ¬disse a Morte. – Você contrariou o 
destino. Agora vai pagar caro pelo que fez. Vou levar você no lugar dela!
O médico tentou negociar. Disse que queria viver mais um pouco.
– Nós combinamos um ano – argumentou ele.
– Nosso trato foi quebrado. Não quero saber de nada – respondeu a Morte. – Venha comigo!
– Lembre-se de que até hoje eu fui a única pessoa que tratou você com gentileza e 
consideração!A Morte balançou a cabeça.
– Quer ver uma coisa? – perguntou ela.
E, num passe de mágica, transportou o médico para um lugar desconhecido e estranho. 
Era um salão imenso, cheio de velas acesas, de todas as qualidades, tipos e tamanhos.
– O que é isso? – quis saber o velho.
– Cada vela dessas corresponde à vida de uma pessoa – explicou a Morte. As velas grandes, 
bem acesas, cheias de luz, são vidas que ainda vão durar muito. 
As pequenas são vidas que já estão chegando ao fim. Olhe a sua.
E mostrou um toquinho de vela, com a chama trêmula, quase apagando.
Mas então minha vida está por um fio! – exclamou o homem assustado. 
– Quer dizer que tudo está perdido e não resta nenhuma esperança?
A Morte fez "sim" com a cabeça. Em seguida, transportou o médico de volta para casa.
– Tenho um último pedido a fazer – suplicou o homem, já enfraquecido, deitado na cama. 
– Antes de morrer, gostaria de rezar o Pai-Nosso.
A Morte concordou.
Mas o velho médico não ficou satisfeito.
– Quero que me prometa uma coisa. Jure de pé junto que só vai me levar embora 
depois que eu terminar a oração. A Morte jurou e o homem começou a rezar:
– Pai-Nosso que...
Começou, parou e sorriu.
– Vamos lá, compadre – grunhiu a Morte. – Termine logo com isso que eu tenho mais o 
que fazer.
– Coisa nenhuma! – exclamou o médico saltando vitorioso da cama.
 – Você jurou que só me levava quando eu terminasse de rezar. 
Pois bem, pretendo levar anos para acabar minha reza...
Ao perceber que tinha sido enganada mais uma vez, a Morte resolveu ir embora,
 mas antes fez uma ameaça:
– Deixa que eu pego você!
Dizem que aquele homem ainda durou muitos e muitos anos. Mas, um dia, viajando, 
deu com um corpo caído na estrada. O velho médico bem que tentou, mas não havia 
nada a fazer.
– Que tristeza! Morrer assim sozinho no meio do caminho! Antes de enterrar o infeliz, 
o bom homem tirou o chapéu e rezou o Pai-Nosso.
Mal acabou de dizer amém, o morto abriu os olhos e sorriu. Era a Morte fingindo-se
de morto.
– Agora você não me escapa!
Naquele exato instante, uma vela pequena, num lugar desconhecido e estranho, 
estremeceu e ficou sem luz.

AZEVEDO, Ricardo. Contos de enganar a Morte. São Paulo: Ática, 2003. 

Comadre Morte

Um conto de fadas dos Irmãos Grimm

Houve um pobre homem que tinha doze filhos e precisava trabalhar, dia e noite, para dar-lhes apenas um bocado de pão.
Quando nasceu o décimo terceiro, ele não sabia realmente o que fazer e, na sua aflição, saiu para a estrada a fim de convidar o primeiro que aparecesse para servir-lhe de padrinho. A primeira pessoa que encontrou foi o bom Deus. O bom Deus, que já sabia o que lhe pesava no coração, disse-lhe:
- Pobre homem, causas-me dó; vou batizar teu filho, cuidarei dele e o tornarei feliz neste mundo.
- Quem és? - perguntou o homem.
- Sou o bom Deus.
- Então não te quero para meu compadre, - disse o homem, - tu dás aos ricos e deixas os pobres passando fome.
Isso dizia o pobre homem, porque não sabia que sabiamente Deus distribui riqueza e pobreza. Deixou o Senhor e foi mais para diante. Então, aproximou-se-lhe o Diabo dizendo:
- Que procuras? Se me aceitas para padrinho de teu filho, dar-lhe-ei ouro às carradas e todos os deleites do mundo.
O homem perguntou:
-Quem és tu?
- Sou o Diabo.
- Então não te quero para meu compadre, - disse o homem, - tu enganas os homens e os induzes à tentação.
Continuou andando e logo, com as pernas ressequidas, veio-lhe ao encontro a Morte, dizendo:
- Aceita-me como tua comadre.
- Quem és? - perguntou-lhe o homem.
- Sou a Morte, que todos iguala.
Então, o homem disse:
- Tu és a indicada, porque levas tanto o rico como o pobre sem distinção; serás pois a minha comadre.
A Morte respondeu:
- Tornarei teu filho rico e célebre; quem me tem por amiga, tem o sucesso garantido.
- Domingo próximo será o batizado, - disse o homem; - sê pontual.
A Morte compareceu, pontualmente, conforme havia prometido e portou-se como uma madrinha às direitas.
Quando o afilhado se tornou adulto, apareceu-lhe um belo dia a madrinha, convidando-o a segui-la. Conduziu-o à floresta e, mostrando-lhe uma erva que lá crescia, disse-lhe:
- Aqui tens teu presente de batizado. Vou fazer de ti um médico famoso. Quando fores chamado a atender algum enfermo, eu estarei todas as vezes lá; se me vires à cabeceira do doente podes declarar, francamente, que o curarás; dá-lhe depois um pouco dessa erva e ele ficará bom. Mas, se me vires aos pés da cama, ele pertence-me e tu tens de dizer que qualquer remédio é inútil, que nenhum médico deste mundo o salvará. Livra-te, porém, de usar a erva contra minha vontade: poderás arrepender-te!
O jovem tornou-se o médico mais famoso do mundo. Bastava-lhe olhar para o doente e já sabia se ficaria bom ou se morreria. Assim falavam dele e o povo acorria de toda parte para que atendesse os doentes, e pagavam-lhe tão bem que logo enriqueceu.
Aconteceu que, tendo adoecido o rei, chamaram o médico para saber se era possível curá-lo. Quando o médico se aproximou do leito, viu a Morte aos pés da cama; não havia erva alguma capaz de salvar aquele doente. "Ah, se pudesse, uma vez ao menos lograr a Morte! - pensou ele, - certamente se zangará, mas sou seu afilhado, por esta vez fechará os olhos! Vou arriscar!
Pegou o doente e virou-o na cama, de modo que a Morte ficou do lado da cabeça. Depois deu-lhe a erva e o rei melhorou e logo ficou completamente bom. A Morto, porém, foi á casa do médico, zangada, e, com expressão sombria, ameaçou-o com o dedo, dizendo:
- Tu me lograste; por esta vez deixo passar porque és meu afilhado, mas, se ousares mais uma vez, agarro-te pela gola do casaco e levo-te comigo, ouviste?
Decorrido algum tempo, adoeceu gravemente a princesa. Era filha única do rei e este chorava dia e noite até ficar cego; fez anunciar que quem a curasse casaria com ela e herdaria a coroa. O médico foi ver a doente e, lá chegando, viu a Morte aos pés da sua cama. Deveria ter-se lembrado da ameaça da madrinha, mas a grande beleza da filha do rei e a felicidade de tornar-se seu esposo o deslumbraram de tal maneira que não pensou em mais nada. Nem sequer via a Morte lançando-lhe olhares furibundos, erguendo a mão e ameaçando-o com o punho fechado, nada via. Ergueu a doente e deitou-a com a cabeça para o lado dos pés; depois deu-lhe a erva e logo as faces se lhe tingiram do mais belo rosado e recuperou a vida.
Vendo-se defraudada pela segunda vez, a Morte, a grandes passos, foi ter com o médico, dizendo-lhe:
- Está tudo acabado para ti, agora é a tua vez.
E, com sua mão gélida, agarrou-o tão duramente que ele não pôde resistir-lhe e foi conduzido a uma caverna subterrânea. Lá, viu milhares e milhares de círios enfileirados, ardendo: alguns grandes, outros médios, outros pequenos. A cada instante apagavam-se alguns, acendiam-se outros, de maneira que as chamas pareciam saltitar aqui e acolá num contínuo revezamento.
- Vês, - disse a Morte, são as vidas dos homens: os mais altos pertencem às crianças, os médios aos casados e adultos e os pequenos aos velhos. Mas às vezes também as crianças e os jovens têm apenas um pequeno círio.
- Deixa-me ver o meu, - disse o médico, esperando que estivesse ainda bastante grande. A Morte indicou-lhe um toquinho bruxuleante, que ameaçava apagar-se e disse:
- Olha, aqui está ele.
- Ah, querida madrinha, - disse o médico apavorado, - acende-me outro! Faze-o por mim que sou teu afilhado, a fim de que possa gozar a vida. tornar-me rei e casar-me com a linda princesa!
- Não posso, - disse a Morte; - é preciso que se apague um círio antes de acender outro.
- Põe, então, o velho sobre um novo para que continue a arder mesmo depois de acabado o primeiro, - suplicou o médico.
A Morte fingiu atender o seu pedido e apanhou um círio grande e novo; mas, querendo vingar-se, fez que juntava um ao outro e, propositalmente, atrapalhou-se; o toquinho caiu-lhe das mãos e apagou-se. No mesmo instante, o médico tombou morto: ele também caíra nas garras da Morte.


Era uma vez um velho rei que decidiu que era a hora do seu filho casar.
Para escolher a felizarda, convidou várias princesas, muitas delas vindas de muito longe, para participarem na festa. Mas, mesmo com várias pretendentes, o príncipe não gostou de nenhuma.
Para resolver a situação, decidiu que seria melhor ele próprio procurar uma esposa, mas sózinho.
Assim, o príncipe montou o seu cavalo e partiu, rumo ao desconhecido.
Um certo dia, chegou a uma floresta e, na entrada da mesma havia uma laranjeira:
– Ah!!! Esta laranjeira tem três magníficas laranjas de ouro! Vou colhê-las. – declarou o príncipe, seguindo o seu caminho.
Mais tarde, com o grande calor que fazia, o príncipe teve sede:
– Vou abrir uma das laranjas, para ver se fico melhor.
E assim fez – Que maravilha, é uma delícia!
Entretanto, da laranja saiu uma bela donzela, com os olhos da cor do céu, e cabelos da cor do sol.
– Dá-me um golo de água, por favor! – rogou a rapariga ao príncipe.
– Infelizmente, não tenho água para te dar! – respondeu ele, encantado com a visão dela.
Com esta resposta, ela desapareceu tal como tinha vindo.
O príncipe continuou a sua jornada mas, o calor aumentava à medida que caminhava.
– Estou de novo cheio de sede, por isso vou abrir a segunda laranja!
Ao abrir a segunda laranja, sai outra donzela, esta com os olhos da cor dum lago, e o cabelo vermelho, como uma cereja:
– Peço-te por tudo, dá-me água! – implorou a rapariga.
– Desculpa, mas não tenho! Afinal, quem és tu? – perguntou o príncipe, mas ela já tinha desaparecido.
Por fim, ele chegou a uma fonte onde conseguiu saciar, toda a sua sede. Agora, estava era com fome:
– Vou abrir a última laranja, e vamos lá a ver o que acontece!
Tal como das outras vezes, também desta laranja saiu uma donzela, com os olhos e cabelos negros como as asas dum corvo, e a pele branca como a neve:
– Dá-me água! – suplicou a rapariga.
– Agora, já posso satisfazer o teu pedido! – respondeu o príncipe, enquanto mergulhava as mãos, em forma de concha, na água da fonte.
Aproximou-se da donzela e deu-lhe a água, para beber. E, assim se quebrou o feitiço de uma bruxa que, tinha encarcerado a rapariga, nas laranjas mágicas.
O príncipe, encantado com ela, levou-a para o seu castelo, onde os dois se casaram, e viviam muito felizes. Algum tempo depois, a bruxa descobriu que a menina tinha sido libertada e, ficou furiosa. Decidiu então disfarçar-se de vendedora, e foi até ao castelo:
– Ganchos para o cabelo! Quem quer comprar estes belos ganchos?
A menina, já rainha, pediu à velhota para entrar:
– Faça favor! Que ganchos tão bonitos…Quero este que, tem uma pérola na ponta.
– Deixe-me ser eu a pô-lo no seu cabelo! – pediu a bruxa manhosa.
A rainha inclinou-se e ela espetou-lhe o gancho na cabeça, transformando-a numa pomba branca. A rainha voou, voou, até chegar à floresta onde, o seu marido estava a caçar.
– Que bela pomba! Vou apanhá-la para a dar à minha esposa de presente. – disse ele, sem saber que a pomba era a sua própria rainha.
Quando chegou a casa, o príncipe teve um enorme desgosto ao ver que, a sua mulher não estava em casa. E os meses passaram e, ela não regressava. O único consolo dele, era a pequena pomba branca que, nunca o abandonava.
Um dia, ao acariciar a cabeça da pomba, ele sentiu a pérola que enfeitava o gancho:
– Quem seria capaz desta crueldade? Vou tirar isto, para ela não se magoar.
Ao puxar o gancho… Aconteceu um milagre!!! A pomba transformou-se, na sua bela esposa.
– Meu amor, estava com tantas saudades tuas! O que foi que aconteceu? – perguntou o príncipe, muito emocionado com a volta da sua amada.
Depois de todas as explicações, ficou furioso e, mandou os seus soldados irem buscar a maldita bruxa, à sua presença. No entanto, isso não foi preciso, pois a velha já tinha morrido, atraiçoada pelos seus próprios feitiços.
E assim, o rei e a bela rainha viveram felizes para sempre…

As três fiandeiras

Um conto de fadas dos Irmãos Grimm

Uma moça, bonita e prendada, não encontrava casamento, embora muito merecesse um bom estado. Ia sempre à missa das almas, pela madrugada, e rezava seu rosário para elas. Perto da casa da moça morava um homem rico e solteiro que dizia só casar-se com a melhor fiandeira da cidade. A moça sabendo essa notícia, ia comprar linho à casa do rico, dizendo fiá-lo todo num só dia. O homem ficava pasmado, vendo uma moça tão trabalhadora.

Não dando inteiro crédito ao que ouvia, uma manhã, em que a moça apareceu para mercar um pouco de linho, disse-lhe em tom de brincadeira: moça, se esse linho é fiado num dia, sem entrar pelo serão, leve-o sem pagar e irei ao anoitecer ver sua tarefa.

A moça voltou para casa muito aflita com a promessa porque não podia fiar o linho num dia, nem a metade da porção que trouxera. Pôs o linho nas rocas e começou a chorar, a chorar sem consolo. Quando, estava assim, ouviu uma voz trêmula dizendo:

- Por que chora a minha filha?

Levantou a cabeça e viu uma velha, muito velha, vestida de branco e muito pálida. Contou o que lhe sucedia e a velha disse: vá rezar seu rosário que eu vou ajudá-la um pouco.

A moça foi rezar e quando acabou todo o linho estava fiado e pronto. A velha disse: Se você casar eu virei às bodas e não se esqueça de chamar-me minha tia por três vezes.

A moça prometeu. Quando o mercador chegou e viu o linho fiado, ficou assombrado. Gabou muito a moça e no outro dia mandou, ainda uma porção maior de linho, dizendo que voltaria para ver o resultado. A moça pôs-se a chorar sem parar.

Outra velha apareceu, parecida com a primeira, e fiou o linho num amém, enquanto a moça rezava. e ao despedir-se fez o mesmo pedido que a primeira velha fizera.

Ainda uma vez o mercador visitou a moça e não teve palavras para elogiar o quanto ela fizera num dia. Mandou, de presente, ainda mais linho e o mesmo pedido. A moça voltou a lamentar-se e uma terceira velha apareceu e tudo se passou como de costume, linho fiado e promessa feita,

O mercador veio visitar a moça e pediu-a em casamento, marcando-se o dia. Como um dos pre sentes de noivado, recebeu a noiva muito linho para fiar, e rocas, fusos, dobadouras e mais apetrechos. A moça estava desesperada com; o seu futuro.

Quando acabou de casar, surgiram na porta as três velhas juntas. A moça, lembrada do que prometera, recebeu-as muito bem, tratando-as por tias, oferecendo comida, bebida, assento, e fazendo toda a sorte de agrados e oferecimentos. O noivo não tinha cobro do espanto qué lhe causava a feição de cada uma das velhas. Não se contendo, perguntou:

- Por que as senhoras são assim, corcovadas, alhos esbugalhados e queixos para fora? Foi alguma doença?

- Não foi, senhor sobrinho - responderam as velhas - foi o fiar que nos deu essas pechas. Fiámos anos e anos e ficámos assim, corcovadas pela posição, olhos esbugalhados de acompanhar o riço, queixos feios péla tarefa com os tomentos.

O noivo não quis mais saber de rocas, fusos e dobadouras. Agarrou tudo e atirou pana o meio da rua, dizendo que jamais sua mulher havia de pegar num instrumento que a faria tão feia.

Viveram muito felizes. As três velhas eram as "alminhas," agradecidas pela devoção da moça.